VINTE E SEIS DO DOIS
Desde pequeno eu via minha mãe anotando tudo. Desde a data em que nos mudamos para aquela casa na Ângelo Barleta até instruções para ligar um DVD player. Isso não me trouxe nenhum aprendizado, a curto prazo, mas me imbuiu do hábito de, sempre que precisava de alguma informação, data de algum aniversário ou “quando foi que eu peguei catapora?”, perguntava à minha mãe – meu Google, mesmo antes da internet.
Era bem comum encontrar anotações variadas nos lugares mais aleatórios possíveis, sempre escritas à mão. Recentemente vi um desses manuscritos (narrando um acidente que tive aos 13 anos) na contracapa de um livro de receitas antigo. Era algo assim:
“28 de janeiro de 1995
Leonardo caiu de costas da gangorra no chão
Ficou sem reconhecer ninguém, nem lembrava seu nome das 16 às 18:30 horas.
Não perdeu os sentidos.
Depois disto, voltou ao normal.”
Um clássico. Nem sei quantos papeizinhos com a senha da internet já achei espalhados pela casa. Agendas telefônicas também, em sua maioria recheadas com nomes, endereços, datas comemorativas, títulos de música. Não tinha muito critério.
Quando cresci um pouco e saí de casa, – e até depois que me casei – essa busca por informações se tornou passiva e os lembretes sempre chegavam a mim por mensagem ou telefonema com uma certa antecedência: “Hoje é aniversário da sua tia, já ligou para ela?” ou “hoje foi o dia que descobri que estava grávida de você”, entre outras coisas. Às vezes eram tantos recordatórios que ela simplesmente esquecia onde tinha anotado e precisava escrever tudo de novo, o que não deixava de ser um bom exercício para a memória.
Até no momento de sua morte tinha um bilhete, escondido entre seus documentos, plantado ali para que fosse encontrado no momento certo, de acordo com ela mesma. Nele havia instruções precisas do que ela queria para o funeral, o que vestir e como deveriam ser alguns procedimentos. Dona Martha sendo dona Martha.
Hoje faz um ano que li este bilhete.
Recentemente, minha esposa me pediu para ajudá-la a completar uma planilha de aniversários da família com dia, mês e ano de nascimento. Tarefa difícil. Alguns nomes do meu lado familiar materno já estavam preenchidos, mas faltava muita coisa. Eu estava no trabalho e o que consegui complementar de memória foi pouco. Eu já não tenho mais meu “personal google”. Cheguei em casa e fui consultar o lugar mais provável de encontrar: a pasta com documentos de minha mãe, que guardo comigo e ainda não tive tempo de organizar.
Não durou nem 15 minutos de busca e a lista estava, praticamente, completa com dia, mês, ano — até a hora do nascimento ou falecimento em alguns casos.
Tenho pensado um pouco a respeito disso nesses últimos dias, em como a presença dela ainda é tão forte para mim. Mesmo eu tendo saído de casa há mais de 20 anos e agora depois de sua partida, minha mãe ainda tem algo a me dizer – e acredito que sempre terá. Essas anotações, por mais avulsas que possam parecer, não são somente lembranças ou palavras anotadas de qualquer forma. São pequenos gestos de cuidado com suas memórias, demonstrações de amor com quem a amava e um ensinamento que foi passado a mim sem que nenhum de nós dois percebesse durante todos estes anos que convivemos juntos.
Hoje me vejo guardando no papel lembranças para os meus em forma de recados, bilhetinhos, mensagens de bom dia e até nos livros que escrevi. A partir de agora, sou eu que dou continuidade a este silencioso legado, escrevendo com minhas próprias mãos.
