O Jogo
por Leo Barros
Domingo, 3 e pouca da tarde, casa do Túlio. Leo, Caio e Edu estavam sentados nas laterais da mesa retangular na varanda e encaravam as fichas de seus personagens, menos o mestre Túlio que observava atentamente a expressão dos demais jogadores.
- Faz um teste de percepção, Caio!
Dados rolam na mesa.
- Conseguiu! Desviou da última armadilha. O tesouro é de vocês!
Todos vibraram com a conquista.
- Beleza, então eu tento abrir o baú com a chav-
- Cês sabiam que aquele cantor, o Scatman, era gago?
- Ah, não, Leo... para com isso! De onde você tira essas coisas?
- É sério! Tô vendo aqui, ó!
Leo ergue a mão mostrando a tela do celular.
- Ele era gago mesmo! Transformou essa dificuldade em música, criou um estilo próprio e ficou famoso! Olha que doido!
A mesa fica dispersa.
- Vai ver, ele só queria mandar um badabum!
Comentário certeiro com assinatura do Edu e agora todos estão rindo. Túlio tenta uma retomada.
- Pô, gente, olha o foco! Voltando: Dentro do baú tem uma poderosa-
- Imagina a cena! – Caio interrompe - O cara tentando falar, alguém chega e manda um: “Ôu, cê podia cantar isso aí!”
Mais risos e Edu completa:
- Vai ver, ele nem queria cantar. Só tava tentando falar “Ah, para!”
O grupo explode em risadas, menos Túlio que bate na mesa esbravejando.
- Pronto, já deu! Agora o Anão do grupo é mudo, menos 10 de agilidade para o Paladino e o Léo vai rolar um D20! Era isso que tinha no baú!!
- Pô, Túlio. Vai com calma.
- Até guardei o celular aqui. Foi mal.
- Calma? Essa é nossa última chance de terminar a campanha antes de voltar às aulas! Já faz uma hora e meia que começamos e até agora vocês saíram da taverna, entraram na floresta e encontraram um baú. UM BAÚ!
- Ah, mas teve o tempo que o Edu levou pra fazer a ficha, né?!
- É. Se ele não tivesse morrido de novo, a gente teria começado antes.
- Agora a culpa é minha? Edu retruca.
- Cara, você morreu três vezes só na semana passada. A última foi a pior!
- Como eu ia saber que não podia beber aquilo?
- TAVA ESCRITO VENENO!! – Caio e Leo falam juntos.
Outro estouro de risada coletiva. Túlio, sério, começa a fechar os livros e recolher as fichas.
- Assim não dá. Toda vez é isso! Pra mim deu. Eu vou juntar tudo e vou embora.
Todos ficaram quietos na hora. Caio, Edu e Leo se entreolhavam sem saber o que falar, enquanto Túlio juntava seus papéis e abria a mochila. Caio quebrou o silêncio:
- Túlio, estamos na sua casa, cara...
Mais risadas. Túlio segura ao máximo, mas não aguenta e ri também.
- Pô, tá foda. Vamo focar aqui então, galera.
Túlio reabre o livro, redistribui as fichas e o jogo segue.
Depois que pegaram o “tesouro” do baú, o time evolui bem. Já passa das 5 da tarde e o grupo ainda precisa libertar a Villa Ambrosia do ataque dos Orcs para finalizar o jogo. O D20 que o Ranger Leo jogou lá atrás, deu a ele uma espécie de “doença do sono” repentina e ele estava sendo carregado agora. Dormindo.
- Qual é o idioma Orc? Questiona Edu.
- Por que a pergunta? Seu Anão não fala! Vai querer conversar por LIBRAS?
Risadas recomeçam e o mestre fica preocupado.
- Só por curiosidade. Quero saber como se fala Orc.
- Orc não se fala, se mata! – Diz Túlio, em um corte rápido.
- Tá bom, tá bom. Desculpa aí... Por falar em Orc, e aquele seu primo, Túlio? Não veio jogar mais.
- Ah, nem chamei. Ele anda meio biruleibe das ideias. Dá uma olhada no Instagram dele pra você ver. Só tem maluquice.
- Putz! Eu vi. Tá falando que a terra é plana e tudo.
- Pois é. Se ele vier jogar, vai querer colocar política em tudo! Privatizar a estrada para a Villa Ambrosia, legalizar porte de arco e flecha para Orc, negar o uso de poção de cura, essas coisas. Vai ser uma bagunça danada. Melhor não.
- Tá doido! Daqui a pouco tá exigindo uso de ficha impressa e auditável!
- Né?! Mas vamos voltar aqui. Vocês ouvem um barulho vindo de trás de um arbusto. Um grunhido alto e bestial. Cada um joga um D20.
Todos rolam, inclusive o Leo que ainda dorme. Edu tem o maior resultado, dá 12.
- Você consegue ver com dificuldade no meio da sombra. Um vulto que aparenta ter uma forma bestial com um corpo esguio e uma cabeça bem pequena. Ele se aprox-
- É o seu primo!
Hahahahahaha!
- É, galera - diz Túlio - Pelo visto, não vamos terminar hoje.
…

