MOSQUITO
Dia de sol, hora do almoço e Afonso está em um boteco, degustando seu PF e uma Coca-Cola ostentando um volumoso topete, aparentemente, penteado com um rastelo.
— Alô, torre, aqui é MOS-K pedindo permissão para pouso.
Silêncio na escuta.
— Repito: pedindo permissão para pouso. Necessito contato visual, câmbio.
Nada, só estática. De repente, uma voz surge no rádio.
— Senhor, aqui é AB-LHA, sobrevoando o perímetro bem ao lado do saleiro.
— Oh, enfim um de nós. Avistado. Informe a situação, tenente.
— Não existe mais área segura para pouso. O Afonso já era, senhor.
— Não é possível. Usamos esta careca como base há anos!
— Sim, senhor. Mais um implantado. Está cada vez mais comum. Semana passada tivemos uma baixa no Oswaldo. Nosso companheiro não avistou o campo de pouso, ficou rodeando a área até não aguentar mais. Pereceu de fadiga, senhor.
— Pobre inseto.
— O mesmo aconteceu com o Rafa, o Túlio, o Fernando e muitos outros. Todos os campos cobertos. Temos sorte de estarmos nesta mesa de bar.
— Sorte? Como assim?
— Sorte, senhor. Lembra do MOS-KITO que serviu com a gente no batalhão? Foi escalado para o box do banheiro do Bernardo e sempre tinha um lugar seguro para pousar. Era expert em pista molhada. De repente, aquela vasta e reluzente cabeça foi tomada por uma vegetação densa e espessa e ele não retornou. Soube que precisou parar na parede próxima ao registro do chuveiro e foi abatido com um jato de água quente.
— Coitado. Um dos melhores da corporação.
Deram mais três voltas ao redor do homem, que já estava com a coxa de frango na mão, pronto para dar uma bela mordida.
— Tenente, está na escuta?
— Sim, capitão.
— Tem certeza que é ele? Preciso me certificar antes que seja tarde.
— Entendido senhor. Partindo para missão de reconhecimento.
Em um rasante, os dois passam pelo nariz, desviando das mãos engorduradas de Afonso, que se aproximam com velocidade.
— Essa foi por pouco, Capitão.
— Mas valeu a pena, tenente. Calvo confirm... digo, alvo confirmado. Enviar relatório para a base: perdemos mais um.
— Isso está cada vez mais frequente. É como estar no incidente turco outra vez.
— Sim, milhares de baixas em um só dia naquele aeroporto. Logo após o retorno da viagem para a Turquia.
— Senhor, sinto que meus motores começaram a falhar.
— Aguente firme, tenente, acharemos um lugar seguro para pousar.
— Não tenho tempo. Já estou perdendo altitude. Acho que é meu fim.
— Não fale uma coisa dess-
— Foi um prazer servir com o senhor.
E caiu, em uma espiral descoordenada, dentro do copo de Coca-Cola.
Afonso vê aquela cena, faz uma careta de nojo, levanta a mão para pedir a conta.
— Esta é minha última chance. Não vou deixar meu companheiro morrer em vão. Espero que, na próxima vida, eu venha como um pernilongo!
E com um rompante de coragem, MOS-K faz seu movimento derradeiro entrando a toda velocidade na boca aberta de Afonso no —exato momento em que o garçom chegou.
— Desculpe, senhor — disse o rapaz —, mas acho que o senhor engoliu uma mosca.
— Sério? Nem vi.
Mas passou o resto da tarde com aquele gosto amargo da vingança na garganta.

